Ana is 27, has a long history of boyfriends and no desire to get married and have a baby. But when she meets Richard, a man twenty one years older than her, divorced and the father of two small children, she packs her bags without thinking twice and moves to London, certain that she's found the love of her life. She leaves behind a job at the University, a family who loves her, a twin brother who needs her and, above all, her independence.
When she arrives in England, she discovers that life as an immigrant is not the adventure she expected and that playing the mother of other people's children is not an easy game.
A tragedy puts an end to her small daily dramas and shows that we should never take life for granted...
O apartamento ficava nas águas-furtadas de uma casa vitoriana reconvertida em três andares independentes, tínhamos de subir umas escadas muito íngremes e estreitas para lá chegar, a casa de banho era alcatifada e não tinha chuveiro mas, apesar de tudo, fomos felizes em Elmfield Avenue. Antes de eu me mudar para Londres. Lembro-me de me sentar à beira da banheira e lhe pedir desculpa enquanto ele se mantinha imperturbável dentro de água, mas foram os melhores banhos de imersão de sempre. Talvez por a banheira ser à minha medida, pequena e rasa, com a inclinação certa para as minhas costas. Talvez por a clarabóia recortar um quadrado de céu e nuvens, com o ocasional avião que o atravessava de uma ponta à outra, e eu poder estar deitada a contemplar essa imagem sempre igual e sempre diferente. Quando o vento soprava, viam-se as pontas dos ramos das árvores em frente. As mesmas árvores que tinham de ser podadas para não comerem os alicerces da casa, que ameaçava tombar e ruir. Sempre que me lembro daquele apartamento, surpreende-me a serenidade com que vivemos entre paredes tão esconsas. Eu trabalhava na mesa da cozinha, num portátil ronceiro, mas conseguia ouvir-me, mesmo quando os filhos do Richard lá estavam…
(primeira página)
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Estávamos deitados na cama, eram cinco e meia da tarde. Confessei-lhe que me sentia enjaulada, presa em casa, os meus dias eram passados a comer, trabalhar e limpar. Queria ter uma vida lá fora […], queria sentir Londres, que Londres deixasse de ser uma abstracção. Queria fugir dos miúdos, que me estavam a sufocar. A televisão a tarde inteira, até às nove, dez da noite, a repetir os mesmos desenhos animados como se o tempo tivesse parado numa eternidade insuportável. De repente, a Fiona entrou no quarto e deitou-se sobre nós. Segundos depois, estava entre mim e o Richard. Virou-me as costas e disse: “Vou dar um beijo romântico ao papá” e colou a boca à dele. Repetia aquele ritual vezes sem conta e ele ficava de olhos abertos, imóvel. Incomodava-me. Incomodava-me ver uma miúda de sete anos a descobrir a sexualidade através do pai, que era meu amante. Não só a privar-me dele, a interromper um momento de carinho, mas acima de tudo a seduzi-lo como a um adulto. Agoniada, levantei-me e saí do quarto.
(p. 72)
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O meu irmão ligava-me todas as sextas-feiras à noite e estávamos uma hora ao telefone, ele em Lisboa, eu em Londres. Até o Richard entrar na sala e dizer: “Já não chega?” Isto, quando éramos só nós os dois, o casal. Nos fins-de-semana em que o Richard ficava com os miúdos, eu própria acabava por atalhar a conversa, ou o Nuno, irritado com o barulho de fundo e com a minha notória distracção. No início, era a Fiona que vinha desligar o telefone às escondidas. Ou o Dave, à descarada. Era a piada das sextas-feiras à noite. Sextas alternadas. Eram onze e meia e eles ainda estavam acordados. Quando nos conhecemos, o Richard disse que os filhos se deitavam pontualmente às oito da noite. Mas, realmente, o Richard disse tanta coisa.
Um ano depois, conquistado o direito à censura, expliquei-lhes que era feio desligarem-me o telefone quando eu estava a tentar falar com o meu irmão. Nunca mais o fizeram; em vez disso, começaram a vir sentar-se ao meu lado, ao meu colo, em cima de mim; a sussurrar-me ao ouvido, a puxar-me pelo braço, a dar-me toques na perna: “Anika, quando é que vens brincar connosco?” (Chamavam-me Anika. Nunca mais ninguém me chamou assim.)
Muitas vezes me pergunto que mais teria o Nuno para me dizer naqueles telefonemas. Descrevia-me ao pormenor os concertos a que ia religiosamente todas as quintas-feiras. Se a orquestra tocara bem ou se desafinara (o que o deixava furioso), se o maestro titular estivera em plena forma ou se, pelo contrário, incitara ao laxismo… Eu, que nem apreciava música clássica por aí além, ficava fascinada.
E enquanto o Nuno assistia da primeira fila aos concertos de uma das melhores orquestras do país, nós sentávamo-nos nos beliches do quarto dos miúdos a ver a Fiona estudar violino. O pai segurava na partitura e ela franzia a testa, abria muito os olhos, concentrada e tensa, e eu enroscava-me em cima da cama, cheia de sono e tédio. Ela pegava no arco e o Dave saía do quarto, sentindo-se excluído. A Fiona tinha de tocar vinte minutos por dia, devidamente anotados no caderninho do colégio particular e rubricados pelo encarregado de educação. Ou pela nanny paga a peso de ouro. Ou por mim, de vez em quando. Quando terminava o ruído de serrote desafinado, ela perguntava-me, ansiosa: “Reconheceste a canção?”. “Claro que reconheci, querida. Tocaste às mil maravilhas.”
Quando o Richard se irritava, acrescentava mais uns três ou quatro enes ao meu nome. “Annnnna”, dizia. Meses depois, se alguém me chamava assim, eu sentia a pele preguear e retrair-se, todo eu encolhia, me tornava fisicamente mais pequena, ainda mais pequena, a ocupar menos espaço, um estorvo menor. Andava pela casa em bicos dos pés, pezinhos de lã, com cuidado para não bater em nada. Não fazer barulho, fingir que não existo, que não vivo aqui, que não sou.
(p. 75)
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Fomos ao Sainsbury’s fazer as compras da semana. Estávamos parados entre dois expositores quando, por detrás de um deles, começámos a ouvir gemer. Uma mulher a gemer. Um misto de orgasmo e sofrimento. Éramos meia dúzia de pessoas no supermercado e todas nos detivemos, perplexas. Demos uns passos para o lado e espreitámos. Era uma mulher negra, enorme, rotunda, com vestes africanas. Só me lembro de ver pano, montes de pano branco, contra a pele escura. Segundos depois, apareceram dois seguranças, também eles negros. Pegaram nela, um em cada braço, e arrastaram-na para lá de uma porta assinalada “zona proibida”. Entreolhámo-nos, ninguém disse nada, mas ficou uma sensação estranha de termos assistido a qualquer coisa de bizarro e inexplicável.
Quando chegámos a casa com os sacos do supermercado, o telefone estava a tocar. Era o [meu irmão] Nuno, de Lisboa. “Liga a televisão, já! Um avião espetou-se contra uma das torres gémeas de Nova Iorque.” O Richard trouxe as últimas compras do carro. Acendi o televisor. E em directo, vimos o segundo avião. Sentámo-nos os dois na beira do sofá, encostados um ao outro. O telefone tocou novamente. O Nuno estava histérico, o mundo ia acabar. O Richard saiu para ir buscar os miúdos à escola. Mais ninguém telefonou. Fiquei horas ao telefone com o meu irmão, de olhos colados no Sky News, enquanto o Richard fazia o lanche para os filhos e fingia que nada acontecera, para não perturbar as crianças.
(p. 89)
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Fomos passar férias ao Chipre. Uma semana em Pafos, estância balnear dos ex-colonizadores britânicos. Choveu durante quatro dias, fez sol nos últimos três. Pelo preço de saldo das viagens, deram-nos um apartamento com vista para um aterro. Desterro. O Richard ficou deprimido assim que chegou à varanda e viu a paisagem. Pó e bulldozers. “Esta terra parece um estaleiro!”, berrou. Ao quarto dia, entrei na sala e dei com ele à frente do espelho, de tesoura em punho a aparar os pêlos do peito. Eu própria já lho fizera tantas vezes, que me comecei a rir, divertida. “Precisas de ajuda para desbravar esse mato?” Virou-se para mim e desatou aos gritos, furibundo: “Um homem já não pode ter privacidade, nem sequer em férias?!” e a seguir só vi a tesoura voar de um lado ao outro da sala e passar-me de raspão pela cabeça. Não sei como é que não me acertou. Não sei como é que não chorei. É espantoso como no espaço de uma fracção de segundo, a mente consegue pensar em tantas coisas racionais — estou sozinha no Chipre com um louco. Há que apaziguar o louco. Falar baixinho. Senão ele mata-me.
Metemo-nos no carro, em silêncio, e fomos explorar a costa noroeste. O céu desfez-se e apareceu o sol. Visitámos os Banhos de Afrodite e vimos um hotel de cinco estrelas no cimo de uma colina deserta. Ofereci-lhe um chá no átrio luxuoso e reservei um quarto. Passámos os restantes dois dias no paraíso: fizemos vela num Laser, apanhámos sol na praia privativa e bebemos vinho no restaurante francês. Eu paguei a conta e voltámos para Londres. Nunca falámos sobre o que acontecera.
Na última noite no Chipre, fomos tomar copos com um grego, dono de um restaurante de pescadores. Levou-nos a um bar depois da jantarada de calamares regados com muito vinho da casa. Instalámo-nos ao balcão — o Richard, eu, ele, por esta ordem — e o inglês do homem era esfarrapado, vi-me grega para o compreender, mas com muito latim de base lá nos fomos entendendo. O Richard é que não pescou nada da conversa e optou por entregar-se ao whisky. O homem não o deixava esvaziar o copo, servia-lhe logo outro, talvez na esperança de o deixar atordoado ao canto do bar e fugir comigo, apesar de ser um sessentão bem medido. Fumava uns cigarros bombásticos, quando se me acabaram os meus começou a entupir-me de tabaco e toda eu tossia e dizia que não e ria. Divertida por o Richard — que sempre disse que um escritor precisa de sair e conviver com o povo, falar com as pessoas na rua, apontar tudo o que vê e ouve — estar prestes a cair do banco. Fiquei a saber os pormenores todos da vida do homem, onde vivia, o que plantava, pescava, bebia, pensava. Também um pouco tocada pelo licor de um fruto qualquer não-identificado, a conversa entrou-me por um ouvido e saiu-me por outro, pouco absorvi. Lembro-me de, a dada altura, ter começado a achar que a coisa podia dar para o torto, talvez fosse melhor irmos embora. Com muito esforço, atalhei o diálogo desconchavado e pedi as chaves do carro ao Richard. Depois de quinhentas despedidas e sem pagar o que consumimos, lá fomos trôpegos para o Fiat Punto. Ébria e com o volante à direita, fiz quilómetros em estradas secundárias cheias de curvas e contra-curvas, na escuridão total, com os máximos ligados e uma concentração fervorosa. Devo ter rezado o caminho todo, porque chegámos incólumes ao aparthotel. Despenhámo-nos na cama e, no dia seguinte, o Richard não se lembrava de nada.
Não vimos os Túmulos dos Reis, mas espreitámos a gruta de Afrodite. Passámos ao lado das montanhas Trodo. Não fomos a Nicosia. Ele não quis ver a fronteira entre o lado grego e o lado turco. “É só mais um muro com guardas”, disse.
Resta uma fotografia de nós os dois sentados na varanda do hotel de luxo, com um mar imenso ao fundo, ambos de roupão de turco e cabelos molhados, a fumar um cigarro. Na mesinha à nossa frente vê-se um cesto de uvas. Um copo de vinho. As minhas unhas pintadas de rouge noir. O nosso sorriso e o meu olhar sem vida. Foi no Chipre que soube que tinha de o deixar e, até hoje, ele não faz ideia porquê. Instinto de sobrevivência.
(p. 110)
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Ele ia à casa de banho urinar e a Fiona ia atrás. Punha-se ao lado dele, a olhar intensamente, e dizia: “É a odisseia do chichi, que jorro!” E ele ria-se. Ela pegava-lhe no pénis, virava a glande de frente e comentava: “É tão giro!” Quando tinha comichões e ardumes entre as pernas, ele subia as escadas, de pomada na mão, e fechava-se na casa de banho lá de cima. Era ele que lhe punha o creme. Eu ficava à espera do lado de cá da porta.
Ele sentou-se na beira da cama, os pés a apontar um para cada lado, este e oeste, a cabeça ligeiramente inclinada sobre o ombro esquerdo e um sorriso, um sorriso condescendente. “Sou um pai liberal. Educo os meus filhos com um espírito de abertura, sem tabus. E eles são a prova viva de que sou um bom pai.”
(p. 191)
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O Richard era um homem fascinante. Um self-made man, como ele próprio costumava dizer. Filho de um mineiro galês e de uma dona de casa inglesa, criado num ambiente despojado de artifícios, de livros e de estímulo intelectual. Veio para Londres, estudou teatro, fez um mestrado em literatura, teve todos os empregos do mundo e tornou-se escritor. Sabia conversar sobre qualquer assunto, desde Blake e Doris Lessing a surf e mecânica de automóveis. Disse-me que tinha quarenta e três anos quando o conheci, confessou por telefone que afinal eram quarenta e cinco, os miúdos descaíram-se e anunciaram que eram quarenta e sete, comprovei-o no passaporte dele. Quarenta e sete anos e um corpo de trinta, sequinho e musculado, o tronco era um V perfeito, ombros largos e cintura estreita. Tinha mãos de cardíaco e pés de barro, mas eu amava-o com a certeza de que seria o último homem da minha vida. Porque me fazia rir. Porque me desejava às horas mais absurdas do dia, entre parágrafos. Porque se escondia atrás da porta enquanto eu falava ao telefone e se punha a balançar uma perna de fora e tudo o que eu via era uma canela de bailarino a trepar pela ombreira, a fingir que nadava bruços, a dançar em pontas. Porque contra-argumentava tudo o que eu dizia e punha todos os meus conceitos e preconceitos em causa. Porque se enroscava comigo no sofá uma noite inteira a ler-me os livros dele, capítulo a capítulo, e me deixava em pulgas à espera da cena seguinte. Porque gostava de Pink Floyd e John McCormack. Porque vivia em desespero constante e eu achava que podia salvá-lo. Porque sonhava com a morte e dizia que eu era a vida. Porque usava camisas cor de laranja, roxas e encarnadas e calçava meias de cores diferentes. Porque quando vestia uma camisola de gola alta preta e punha os óculos de intelectual era um homem muito bonito. Porque tinha rugas aos cantos dos olhos e dois vincos aos cantos da boca e um olhar intenso de criatura vivida. Porque tinha sempre uma história para contar e dizia frases lapidares, perfeitas, daquelas que dá vontade de pendurar pela casa e saborear como uma bica. Porque detestava a Thatcher e se enervava sempre que falava nas minas que foram encerradas deixando milhares de famílias na miséria. Porque foi hippy, teve aulas de ballet, foi actor, operário das obras, jornalista, alcoólico, desregrado. Porque me telefonou todos os dias quando foi de férias sem mim para Malta, uma semana depois de nos termos conhecido, e me dizia: “Estou no jardim, debaixo de uma oliveira, a beber vinho tinto e a ouvir as cigarras, pensando em ti”. Porque me levou aos extremos e me obrigou a sair de dentro de mim mesma.
(p. 129)
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Vivi um mês dentro de casa do Richard sem ter sexo com ele. Escapulia-me de vez em quando para ir ter com o Matthew, voltava antes de o Richard chegar a casa. Às quartas-feiras, quando ele ia dar aulas, as aulas que eu já não podia dar. Planeei a minha fuga, mas precisava de arranjar emprego antes de sair de lá. E que o meu pai pagasse o depósito do aluguer de um quarto, o equivalente a uma renda. Na véspera do Dia D, sentei-me no chão da sala, em Oakfield Road, naquela sala que eu pintara com as minhas próprias mãos, e chorei de cabeça baixa, enquanto o Richard, de partida para a África do Sul, me dizia […] que eu, Ana, andava completamente transtornada. Foi esse o pretexto que usei para não ir de viagem com ele, de viagem com um louco para o outro lado do mundo, para uma terra já de si violenta. Ele disse que eu estava desequilibrada, chegou mesmo a usar a palavra “histérica” […]. Eu confirmei o diagnóstico, soluçando, fiz que sim a tudo. E foi deste modo que ele partiu sem mim, durante quinze dias, para ir orientar um workshop de escrita criativa na Cidade do Cabo, e me deixou sozinha em Londres, supostamente para recuperar a minha sanidade mental. Quando regressou, não tinha ninguém à espera dele.
Fui passear a Covent Garden para aclarar as ideias. Sentei-me no café do Pineapple Studios, a beber um copo de água. Puxei de um cigarro e fiquei a ver uma aula de funky jazz pela janela. Tinha vontade de dançar. De apagar as luzes e dançar no escuro, só eu, sozinha comigo mesma. Onde é que eu estava? Em que ponto do caminho é que me perdera? Devia ter fugido no dia em que o Richard olhou bem dentro dos meus olhos, à porta de Elmfield Avenue, e me disse: “Não quero ter filhos. Nem contigo nem com mais nenhuma mulher” e eu, que nunca desejei ter filhos, senti morrer alguma coisa dentro de mim. Estava a nevar. “Os teus filhos deviam ter sido meus”, sussurrei.
(p. 112)
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[o] quarto […] ficava num bairro de habitação social entre Crouch End e Finsbury Park, na fronteira entre a zona branca e a zona “étnica”. A rua de cima era de casinhas vitorianas com jardim e baloiços, a rua de baixo era de restaurantes marroquinos, gregos, indianos, lojas de conveniência, pubs manhosos e cabeleireiros africanos, lojas dos trezentos e agências imobiliárias a cair aos bocados. A rapariga que me abriu a porta era linda, uma bonequinha em ponto pequeno com uma longa cabeleira preta, uma boca enorme e um nome lindíssimo, Christabel. Sentámo-nos no sofá-cama da sala de soalho novo, à conversa, enquanto o outro morador da casa, o John, comia lasanha aquecida no micro-ondas. Tinham vinte e um anos e uma leveza que me cativou. Fizeram-me uma chávena de chá e rimo-nos. A Christabel sorriu de orelha a orelha quando lhe disse que andava na salsa e que queria sair de casa, porque estava a pensar deixar o meu namorado vinte e um anos mais velho do que eu. De repente, aos olhos deles, o meu evidente desequilíbrio pareceu uma coisa fascinante. No dia seguinte, a Christabel telefonou-me a dizer que o quarto era meu, se ainda o quisesse.
[…]
Dormi sozinha naquela primeira noite num quarto que era meu. Acabavam-se as mentiras, a culpa, o medo. Londres abria-se aos meus pés, cheia de promessas.
(p. 116)
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Agência de viagens Sunny Holidays, no bairro de Muswell Hill, zona norte de Londres. O carteiro trouxe a correspondência do dia. Vinha de calções, como era hábito, apesar da chuva constante. Falou de Tai Chi com a Gabriella e sorriu-me discreto. “Have a good day, ladies”, despediu-se. O patrão ainda não tinha chegado, ainda havia hipóteses de o dia vir, de facto, a ser bom. O patrão chamava-se Carlos e nós éramos os anjos do Charlie: eu, a outra Ana, a Gabriella, a Greta, a Goyit e a Michelle. Uma portuguesa, duas híbridas luso-britânicas, uma neo-zelandesa, uma filipina e uma sul-africana. Seis mulheres. Não podíamos ser mais diferentes umas das outras. Todas tinham experiência em turismo, eu era a única que não entendia nada de nada. Durante as primeiras semanas, fiz trabalho de secretária, mas ao fim de uns tempos o Carlos chamou-me à cozinha improvisada nos fundos do escritório e anunciou que estava na hora de me ensinar os segredos do ofício. Passei dias e dias sentada com ele a decorar os horários dos voos da TAP e da British Airways […] e a decifrar os tarifários de centenas de hotéis de norte a sul de Portugal […].
O Carlos anunciou-me que a pontualidade era vital e que eu chegara atrasada duas vezes (cinco minutos, porque o autocarro se atrasara). Explicou-me que a alma do negócio era atender cada cliente com um sorridente: “Sunny Holidays, good morning, how can I help you?” e sempre que o telefone tocasse, correr para ser a primeira a pegar no auscultador e vender, vender, VENDER.
[…] Não tínhamos hora de almoço. Cada minuto que passávamos fora do escritório, a agência perdia telefonemas, perdia clientes, perdia dinheiro. Eu podia fumar três cigarros por dia, mas ao fundo da rua, para não dar mau aspecto à agência. Podia comer uma sanduíche ou uma salada nos fundos da loja, se os telefones não estivessem a tocar. (Os telefones passavam o dia todo a tocar.)
Um dia, acabou-se o papel higiénico. O Carlos mandou-me à loja da esquina comprar um pacote. Trouxe um qualquer, sem ver o preço. Ele disse que era muito caro. Quando o stock acabou, ele próprio trouxe vinte rolos de papel higiénico do mais barato, tão barato que não o podíamos usar porque arranhava. A Gabriella queixou-se: “Carlos, I had to drip-dry!” O Carlos respondeu que papel higiénico era papel higiénico era papel higiénico. A Gabriella contou a história, em tom de brincadeira, ao dono da empresa concorrente, que era frequentador assíduo do pub da rua. No dia seguinte, ele entrou-nos no escritório com um carregamento de papel higiénico de qualidade e, perante um Carlos estupefacto, disse: “Carlos, não posso permitir que estas senhoras andem com o rabinho assado” e foi-se embora. Nunca mais discutimos por causa do papel higiénico.
Engordei cinco quilos, sentada à secretária das nove menos um quarto da manhã até às seis, sete, oito horas. Mas à sexta-feira, o Carlos levava os seus anjos ao pub e oferecia-nos bebidas e pacotes de batatas fritas e porco frito. Confraternizávamos com o dono do pub, cuja mulher aparecia de quando em quando com um olho negro, e com o Will, o caroqueiro da zona que fazia pequenas obras na loja.
Uma manhã, estava o Will a pintar a montra da agência, quando passou a comitiva da rainha. Saí para fumar um cigarro (o Carlos não estava, era dia santo na loja). O Will olhou para mim com os olhos arregalados e disse: “Acabou de passar a Rainha”. Sim, e…? “E ela parou o carro, abriu a janela e cumprimentou-me. E eu respondi: “Liz, minha querida, vieste ver-me!” […] Compreender o Will era um esforço linguístico desmesurado — ele tinha um sotaque cockney que parecia saído do My Fair Lady.
A outra Ana passava as manhãs a contar as suas peripécias de autocarro desde Camden até Muswell Hill. “Passei por uns pedreiros a caminho da paragem e ia assim vestida, com estes sapatos que me custaram os olhos da cara e esta mini-saia, e eles fartaram-se de mandar bocas. Não posso andar de autocarro, Carlos, sou demasiado bonita para andar de transportes públicos” e ria, ria, ria.
A Greta, bailarina por formação, vendedora de viagens por penúria, fazia a espargata a meio do corredor, sempre que o Carlos ia à casa de banho (ocasião rara, a nossa teoria era que o homem nem sequer mijava, de tão forreta que era).
A Gabriella abanava o rabo e mostrava-nos como se dança a lambada, dizendo que nos tempos de estudante arranjara emprego a dançar em cima das colunas de um bar.
A Michelle rabujava porque o Carlos implicava com o sotaque sul-africano dela, “tens de aprender a falar com uma pronúncia britânica, assim parece mal”. (Pergunto-me o que será uma pronúncia britânica…)
A Goyit olhava para nós como se fôssemos um bando de malucas e ligava ao marido, que passava o dia a mandar emails com anedotas porcas à Gabriella, que ia ao hotmail sempre que o Carlos se afundava atrás da secretária dele.
Eu fazia chás, chás o dia todo, para toda a gente, porque enquanto fazia chá não tinha de atender o telefone e acalmava a necessidade de nicotina. “Eu fumava dois maços por dia e parei de repente. Nunca mais fumei”, dizia-me o Carlos, sempre que podia. “Porque estás gordo e o médico disse que corres o risco de ter um enfarte”, explicava a Gabriella por gestos, escondida atrás do arquivador.
Ao fim de quatro meses, achei que ia morrer com um tumor cerebral por passar o dia com o telefone colado à orelha, a debitar informações sobre os três voos diários Londres-Lisboa. Ia morrer e as minhas últimas e famosas palavras seriam: “Sunny Holidays, good morning, how can I help you?”
(p. 120)
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Fui convidada para ir dar aulas a uma aldeia perto de Bath. Três dias apenas, pagos a peso de ouro, numa mansão do século XVII transformada em escola de línguas para empresários europeus. Assim que cheguei, sentei-me numa sala, à frente da lareira, a ler um livro. Era de noite e eu estava vestida de vermelho. Cada aluno que passava detinha-se e cumprimentava-me como se não visse uma mulher há meses. Estavam desterrados, entediados, fartos do glorioso campo inglês onde nada acontecia, cansados dos professores tão britânicos e dedicados que os obrigavam a falar inglês até à hora das refeições comuns. Ao fim do primeiro dia quase houve um motim, porque queriam falar, beber e berrar à vontade. Eram quase todos italianos. Um deles pegou numa guitarra e tocou O Sole Mio, claro, e todos cantámos. Na segunda noite, tocados pelo vinho argentino, dançámos salsa. Esqueci-me de quem era e do papel que devia desempenhar, de contenção e profissionalismo, e bailei a noite inteira com o Guillermo, o administrador da escola, um uruguaio de um metro e oitenta, olhos verdes e pele morena. Na terceira noite, sentámo-nos lado a lado a ver os episódios do Ali G e, por entre uma garrafa de vinho branco e uma de tinto e muitas gargalhadas, as nossas mãos tocaram-se. Terminámos a noite no quarto dele — onde entrei e saí à socapa para ninguém me ver — a fazer amor, ambos embriagados, e voltei para o meu quarto a horas impróprias.
Tive um pesadelo tão vívido que acordei a gritar, encharcada em suor. Estava numa rua de Londres, sozinha à noite, e de repente passou uma ambulância desesperada. Parou uns metros à frente, na entrada de um hospital, por baixo de umas colunas. O tecto da ambulância abriu-se e, por cima, no chão do primeiro andar do hospital, abriu-se simultaneamente um alçapão. Vi cair um saco enorme, preto, de plástico, que se rompeu durante a queda e choveram corpos, dezenas de corpos nus, cadáveres lívidos que me soterraram. Senti-me esmagada por um deles, senti nitidamente um braço inerte encostar-se a mim e gritei.
Eram sete da manhã e eu tinha de ir dar a última aula. Apareci com olheiras pelos pés e um discurso completamente disléxico, mas o William, o meu aluno, pareceu não reparar. Despedimo-nos às seis da tarde, constrangidos, sob o olhar da gerente da escola.
Subitamente, tive consciência de que tudo à minha volta estava a fugir-me ao controlo, senti-me perdida no caos, era como se o mundo inteiro tivesse decidido desatinar à mesma hora, apesar de, à superfície, continuar tudo britanicamente contido.
(p. 152)
O Guillermo veio buscar-me ao fundo da rua, reconheci-o pelo andar, os braços que balouçam e se cruzam alternadamente à frente do corpo. Assim que chegou perto de mim, comecei a falar, a falar sem parar, num tom de queixa, recriminatório, não sei de onde me vem este tom, parece que tenho dezasseis anos e não consigo controlar a minha voz. Ele remete-se ao silêncio. Que eu interpreto como frieza. Penso, ele está a brincar comigo, só quer sexo. Entro como um furacão no apartamento de Holborn, chão de madeira como o de Richmond Road, pequeno, vazio, tão estranhamente familiar. Uma bicicleta encostada à parede, uma cozinha quadrada, cubicular, metalizada e nua, o corredor, a sala despida e o quarto com um colchão no chão, três prateleiras suspensas do Ikea com livros de arte e um leitor de CD a tocar The Corrs. Tiro o casaco de cabedal, o cachecol cinzento, deixo no chão a mala e paro à frente dele. Tão alto. Imóvel como uma estátua. Provavelmente sem saber o que fazer. Interpreto como desinteresse.
Avanço para o quarto. Deito-me atravessada no colchão tapado por um cobertor cinza. Ele senta-se ao meu lado. Distante. Não se debruça para me beijar, durante o que me parece uma infinidade de tempo. A minha mente regista a distância entre nós como mais uma prova de que não passa de sexo. Um jogo, seja o que for, mas não é amor. Descolo as costas do colchão e beijo-o. Dispo-me. Furiosamente. Vejo-lhe um sorriso quando tiro a T-shirt preta, desta vez sem medo de lhe mostrar o meu corpo. Desaperto-lhe as calças, puxo-as para baixo, debruço-me sobre ele. Não sou capaz de levantar a cabeça e fitá-lo, como fiz em Bath, lentamente, observando cada ínfima mudança de expressão. Sou um autómato, executo tarefas. Sofregamente. Paro e ele endireita-se, tira a camisa pelo pescoço, sem desapertar os botões, vou para lhe dar um beijo mas esbarro nas mãos dele a tirarem o colar da virgem que a mãe lhe ofereceu. Deito-me de barriga para cima e puxo-o para mim, mas ele mantém-se de joelhos, de costas hirtas, e entra em mim do alto dessa distância enorme de onde não me pode beijar. Fecha os olhos e lança a cabeça para trás, eu escancaro os meus e sinto-o. Vêm-me as lágrimas aos olhos, franzo a cara para as conter, olho para ele e não lhe leio nada nos olhos. Toldados, não sou capaz de decifrá-los. A vontade de chorar passa de imediato. É sexo que queres, é sexo que terás. Viro-me de costas e ofereço-lhe o meu corpo. Ele recusa-se até que eu lhe diga o que quero. Tem de ouvir-me dizê-lo com todas as letras, de preferência em forma de palavrão, e eu nego-me. Esse jogo jogo-o eu em casa. Dominador/submissa. Não vim aqui para isso. Vim aqui à procura de outra coisa. Sexo será. Ele vem-se na minha boca. Dou-lhe um beijo no estômago, outro no braço, outro no ombro e deito-me ao lado dele, imóvel. “Me dejaste sin palabras”, diz. E a minha mente responde, cínica e muda: Não, chamaste-me aqui na esperança de repetir este instante, nada mais. Missão cumprida. O telemóvel toca. Levanto-me de um salto, visto-me à louca. É o Matthew, preocupado, onde estás?, ignoro a chamada, ele veste-se à pressa, com um ar perplexo, sem abrir a boca. Calço as botas e vou à casa de banho, uma porta de madeira tosca, polibã, o chão de mosaicos cinzentos. Ponho o cachecol ao espelho, ajeito os cabelos e, pela primeira vez desde que cheguei, sinto-o próximo, sinto-o como antes, a observar-me do corredor enquanto me vejo ao espelho. Mas não o fito, porque já tenho uma imagem gravada na memória há onze anos: eu e o Jonathan num espelho quadrado, a imagem perfeita do que nunca foi.
Saí como entrei, a mulher furacão que vai à procura do amor e se comporta como uma puta por causa de um equívoco e provavelmente ele só queria olhar-me e falar. E eu calei-o.
Não nos abraçámos à porta. Não trocámos juras de amor nem lamentos de despedida. Caminhei para o metro no frio de Novembro, cinco e meia da tarde, noite cerrada. Desci as escadas da estação a correr, desvairada, concentrada nos degraus metálicos debaixo dos meus pés, evitando os braços que seguravam sacos de compras, casacos e crianças. Sentei-me no metro, abri o livro e não li uma única linha. Telefonei ao Matthew a dizer que não tinha ouvido o telemóvel tocar.
(p. 202)
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Foi duas semanas antes do Natal que mudei de ideias e resolvi marcar passagem para Lisboa à última hora. Eu e o Matthew já tínhamos encomendado o peru e os legumes no talho biológico do bairro. A minha mãe enviara-me uma encomenda de bacalhau, que pus logo de molho. Estava tudo pronto para uma consoada a dois, a três, contando com o gato. Senti um apelo avassalador e reservei lugar num voo da TAP. O Matthew ficou magoado, […] mas aceitou a minha decisão. Como ele dizia, uma coisa só é nossa se a deixarmos voar e ela voltar para nós. Como quis fazer uma surpresa à família, não contei a ninguém que ia passar o Natal a Portugal. Devia ter contado.
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No dia 17 de Dezembro, ao fim da tarde, ele parou o carro a meio do tabuleiro da ponte 25 de Abril e atirou-se às águas do Tejo. E a única coisa que eu consegui dizer ao telefone foi: “Em que sentido é que ele ia? Norte ou Sul?”, como se de repente essa informação fosse crucial para eu compreender o porquê.
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O meu irmão é o elefante cor-de-rosa sentado à frente de quem se senta comigo e todos o ignoram. Podem falar! Falem à vontade! Perguntem porquê? Como? Se deixou um bilhete ou mostrou indícios, se estava deprimido ou era simplesmente louco; se o odeio ou me recrimino, se é um peso ou um alívio, se sinto vergonha ou orgulho. Perguntem. Porquê a 25 de Abril e não a Vasco da Gama? Façam perguntas idiotas, choquem a etiqueta, atropelem o tacto, mas por favor falem, não finjam que não estamos todos sentados à volta de um enorme elefante cor-de-rosa que ninguém vê!
Ele ilustrava todas as redacções com cartoons politicamente embaraçosos […], desenhava o estômago a dialogar com os intestinos numa conversa escatológica, representava o dia dos defuntos com esqueletos tétricos e na tarde em que chegou a casa a dizer que já tinha sido operado ao apêndice e feito a circuncisão e portanto só lhe faltava a próstata, a nossa mãe achou melhor ir à escola pedir ao professor Costa para acabar com as redacções ilustradas, mas ele mandou-a embora dizendo “o seu filho tem uma imaginação prodigiosa”. Pintava suásticas e deitava fogo aos carrinhos no pátio, montava kits de aviões e coleccionava fotocópias dos cartazes de filmes que saíam nos jornais. Discursava duas horas sobre o som do Jurassic Park e quatro horas sobre as sinfonias de Beethoven em versão comparada de quatro maestros. Era trapalhão a comer e desde que deixou cair a louça toda do campismo a caminho da pia nunca mais nenhum de nós lhe pediu para ajudar nas lides domésticas. Era o aluno mais popular da escola e o mais estroina do liceu, mas com sentido de humor, perdoavam-no sempre. Jogava ténis contra uma parede do quintal e descia a nossa rua de skate e deslizava do terceiro para o segundo andar encavalitado no corrimão das escadas do prédio. Fez karate e culturismo, mas quis rapar as pernas para uma competição e o nosso pai pôs fim aos halteres, batidos proteicos e cubos de soja. Entrava em casa bêbado à uma da manhã e à força que queria ir à sala dizer olá ao papá e eu tinha de o arrastar às escondidas para o quarto; acordou uma manhã no meio de vómito e só me lembro de ver o colchão a arejar na varanda e o silêncio consternado da nossa mãe. Roubou beijos a todas as miúdas da turma, mas apaixonou-se pela única que o rejeitou e andou dez anos a construir uma personalidade inversa, introvertida, anti-social, sedentária, fiável, doméstica, reprimida, deprimida. Queria ser piloto da Força Aérea, mandaram-no para a Marinha, odiava barcos e queria era voar. E assim como alguém eminente escreveu em Londres que o ataque terrorista contra as Torres Gémeas foi um espectáculo esteticamente lindíssimo, também eu enlouqueço e digo que a tua morte foi magnífica — leve e arrojada, na luz celestial desta cidade que amo, Lisboa.
Se me perguntarem quem és, é isto que direi.
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