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RTPN, programa "Ler + Ler Melhor"
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06-05-2010
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06-08-2005
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Revista "Ler", Julho 2009
Facebook
Pgina da Claque dos Autores
Dezembro 2010
A - Pode falar-nos um pouco do seu prximo, ou mais recente, trabalho?- Quandovai sair, ou quando saiu?
O meu terceiro (e mais recente) romance - "A Lucidez do Amor" - saiu em Fevereiro de 2010 e narra uma histria de amor em tempo de guerra, baseada em quatro personagens muito heterogneas que nos mostram que a nica soluo para os conflitos o Amor, sob todas as suas formas, e a miscigenao. O meu prximo romance vai sair em 2011 e aborda, no um amor sereno, mas a paixo, ou seja, sentimentos mais violentos, mais crus eflor da pele. uma espcie de Madame Bovary do sculo XXI, passada em Paris.
B - O que ser-se autor em Portugal?
Publiquei trs romances em Portugal estando a viver no estrangeiro, portanto nunca acompanhei o processo de edio de A a Z; fiz tudo - correces, escolha de capa, reviso de provas - distncia, por internet, telefone e correio. Vinha a Portugal de passagem, s mesmo para os lanamentos dos livros, e depois voltava para a minha vida, que ficava to longe daqui. Tive o privilgio de lanar o meu terceiro livro nas Correntes d'Escritas e foi uma sensao extraordinria conhecer algumas das pessoas do meio literrio portugus (editores, escritores, crticos). como se me tivessem apresentado minha famlia alargada, primos e tios que eu conhecia de nome, mas que nem sequer sabia como eram fisicamente. Como em todas as famlias, existem desacordos e desavenas, mas o balano tem sido muito mais positivo do que negativo. Agora que estou a viver em Lisboa, tenho ainda mais vontade de publicar o meu prximo romance, sabendo que poderei seguir de perto todas as fases da edio e, acima de tudo, apostar verdadeiramente na minha relao com os leitores, uma vez que estou presente e no a milhares de quilmetros de distncia.
C- Qual a sua opinio sobre a Claque dos Autores um grupo que se dedica, exclusiva e diariamente, a todas as reas da Cultura Portuguesa, atravs do Facebook?
Todas as iniciativas que tenham por objectivo aproximar os escritores dos leitores so sempre bem-vindas e sado-as com uma grande salva de palmas. Confesso que me d prazer passar pelo Facebook e ver o que a Claque nos prope a cada dia: um verso, uma exposio, uma pea de teatro. Portugal um pas pequeno, mas tem uma oferta cultural muito vasta, que merece ser divulgada por todos os meios possveis, e o Facebook deve servir para isso e no para colmatar solides. Parece-me um belo projecto - ainda por cima, to caloroso - e espero que persista.
D -Importa-se de referir:
1- Um Monumento portugus:
O Santurio de Nossa Senhora do Cabo, no Cabo Espichel. No sou catlica e muito menos praticante, mas sou crente e se h um lugar nesta terra onde sinto a presena de Deus, de uma energia mstica que me transcende e me d alento, no Cabo Espichel. Fico revigorada e em paz, a cada visita.
2- Uma Figura histrica portuguesa:
Natlia Correia. Tive o prazer de a conhecer brevemente e de passar um sero maravilhoso em casa dela, quando eu tinha dezanove anos, e fiquei fascinada. Era uma mulher com um carisma excepcional, que suscitava dios ou paixes, mas no deixava ningum indiferente. Era uma fora da natureza. E escreveu uma frase de que gosto muito: "Que as foras inebriantes da vida o despreguem da cruz, para que Cristo no seja sofrimento mas alegria." Portugal seria um pas mais alegre, se acabssemos com esta noo da vida como uma cruz que se carrega, imagem de Cristo. E, claro, se tivssemos mais gente como Natlia a fazer discursos em verso no Parlamento.
3- Autor/obra portuguesa que mais o marcou (livro, quadro, msica, etc.):
Os gigantescos sapatos da Joana Vasconcelos. O meu sonho ver um deles exposto em Versalhes, um dia (se o Jeff Koons por l passou, a Cinderela pode muito bem l deixar o seu sapatinho de cristal). uma obra to complexa e metafrica, que pode ser abordada de inmeras perspectivas. Fascina-me este sapato que, pelas suas dimenses, s pode pertencer a uma deusa, a uma mulher poderosssima; mas, quando nos aproximamos, vemos que feito, no de lantejoulas, mas de tachos, smbolo da mulher confinada casa e s tarefas domsticas, a mulher agarrada ao fogo. Acho que podia escrever uma tese sobre isto! Adoro. subversivo.
4- Prato portugus:
Bacalhau com broa. Ia dizer cozido portuguesa, mas lembrei-me de alguns amigos vegetarianos que me puxariam as orelhas por essa falha, portanto fico-me pelo bacalhau e pela broa, to portugueses.
5 - Portugal no Mundo:
Os meus bocadinhos muito pessoais de Portugal no mundo: Pastis de nata nos mercados de Paris e em Notting Hill. Um concerto de Mariza em Londres. A voz de Msia em Saint-Malo. As tradues de Pessoa e Saramago nas livrarias de todos os pases onde j vivi. E, acima de tudo, a lngua portuguesa que me acompanha para onde quer que eu v; h sempre algum que fala ou percebe portugus em qualquer rua do mundo, o que no de estranhar, uma vez que temos cerca de cinco milhes de portugueses a viver no estrangeiro e somos mais de 250 milhes de falantes portugueses nesta Terra!
E - Pequena Biografia
Nasci em Coimbra, h quase quarenta anos, mas Lisboa a minha cidade de eleio, a minha terra, onde me sinto em casa. J vivi em vrias grandes cidades europeias e cada vez mais gosto desta capital feita a uma escala to humana. Costumo dizer que tenho dois empregos, mas uma s vocao: de dia, sou tradutora e, noite, escritora, o que significa que as palavras - a palavra - tm um grande peso para mim. Constru a minha vida em torno da literatura, que sempre foi e ser o meu refgio, o espao onde encontro respostas para grande parte das minhas dvidas. Tenho o privilgio de poder traduzir alguns dos meus autores preferidos, o que faz com que trabalhar seja um prazer, e a sorte ainda maior de contar com leitores fiis, que me seguem a cada livro. Sou apologista de mudar a vida, como dizia Rimbaud, e procuro a felicidade nos pormenores, em vez de esperar pela sorte grande. As minhas palavras-chave: respeito, lealdade, perseverana.
Portal na Internet
Blogues
"Sobre mim:
Sou uma contadora de histrias. Como levo uma vida de eremita, vivo virada para o mundo, para os outros, sempre atenta ao que vejo e ouo. Sou uma amiga fiel, uma leitora compulsiva, uma me-galinha, uma namorada ciumenta, uma mulher objectiva, uma cabea no ar, uma portuguesa muito britnica, um ser muito autocrtico. Sou perfeccionista, pontual, desastrada, tropeo em tudo, queimo o jantar com demasiada frequncia. Sou orgulhosa, mas sei pedir desculpa quando erro. Sou tradutora de dia, escritora de noite. Sou uma insatisfeita permanente, mas sei reconhecer a felicidade quando ela me bate a porta e deixo-a sempre entrar. Detesto a frase: Vai-se andando. Vivo tudo at ao fim, no fao nada pela metade.
Estilo e Ritmo de Escrita:
Gosto muito da maneira como os meus leitores definem o meu estilo: despretensioso, lmpido, directo, simples mas no light. uma escrita intimista, mas contida, sobre sentimentos intensos, evitando o sentimentalismo. O ritmo extremamente importante para mim, o texto tem de fluir, a leitura tem de ser um prazer e no um constante tropear em obstculos; detesto frases inteis, floreados, palha. Gosto de agarrar o leitor desde a primeira frase e dar-lhe vontade de continuar a ler, talvez por eu prpria ter uma capacidade de concentrao limitada e facilmente me desinteressar das coisas. Escrevo como vivo: sem tempo a perder com coisas suprfluas, indo directa ao que realmente importa. Quando era mais nova, adorava livros com longas descries e malabarismos lingusticos, livros que me deslumbrassem hoje, aprecio cada vez mais a simplicidade e a subtileza, livros que me faam exclamar menos enquanto os leio, mas pensar mais quando os pouso.
Influncias:
Como tenho uma profunda paixo pela lngua inglesa, as minhas influncias passam sobretudo por autores anglfonos, como Ian McEwan, Martin Amis, Kazuo Ishiguro, Doris Lessing, Maya Angelou, Adrienne Rich, Margaret Atwood, Alice Munro, Anas Nin, Jenny Diski, Julia Leigh J para no falar nos clssicos, Jane Austen, Henry James, Edith Wharton, Somerset Maugham, as irms Bront, E.M. Forster e por a fora. Se tivesse de escolher autores portugueses que me marcaram muito nos meus anos de formao, diria Sophia de Mello Breyner, Ea de Queiroz e Jorge de Sena. Os Maias e Sinais de Fogo so dois livros extraordinrios!
Projectos Futuros:
Num futuro muito prximo: embalar a casa de Paris, mudar-me para Lisboa, reaprender a viver em Portugal, tomar muitos cafs com os meus amigos e tirar dois meses de frias para escrever o meu quarto romance, porque as personagens habitam-me h trs anos e estou cheia de vontade de me entregar a elas de uma vez por todas.
Que conselhos d a quem quer enveredar pela carreira de escritor?
Ler, ler, ler. Para se escrever bem, preciso ler muito e ler autores variados. natural passar pela fase das obsesses literrias, mas convm descobrir o seu prprio estilo, a sua prpria voz, para no cair no pastiche. Depois, preciso trabalhar muito e corrigir, corrigir, corrigir. No ter medo de cortar, deitar fora, reescrever. Saber ouvir a opinio dos outros, sem se deixar censurar. Aceitar as crticas, sem se ir abaixo. Ser perseverante. Acreditar no que se faz. Manter-se fiel a si mesmo, escrever aquilo que se tem vontade e no aquilo que se acha que o mercado quer. Olhar mais para os outros e menos para o seu umbigo. Ter o esprito aberto, sem preconceitos. Pensar em letras e no em algarismos."
10-03-2010
com muito prazer que hoje publicamos mais uma entrevista aqui no blog, desta vez autora portuguesa Tnia Ganho, da qual li recentemente ALucidez do Amor. sobre esse livro que incide boa parte desta entrevista, pela qual agradeo desde j autora etambm Porto Editora, por ter facilitado ocontacto.
Estante de LivrosA Lucidez do Amor aborda aguerra, principalmente na perspectiva feminina, das esposas que ficam em casa espera que os maridos regressem. Considera que estas heronas no tm sido devidamente louvadas, na literatura enas artes em geral?
Tnia GanhoPenso que no tm sido louvadas, porque simplesmente no so consideradas heronas, so mulheres que vivem nos bastidores, na sombra e, como Penlope, ocupam um lugar secundrio nas grandes narrativas sobre os feitos dos homens aventureiros.
E.LAchei interessante aincluso da Guerra do Ultramar na histria, pelos contrastes que apresenta com as guerras actuais, acabando por ser muito semelhante no essencial. Oque amotivou ainclu-la no livro?
T.G.Precisamente para mostrar que, apesar de oconceito da guerra ea maneira de se fazer aguerra ter mudado muito desde o11 de Setembro, na base continua aser uma luta em que as pessoas matam emorrem, em que as famlias choram aperda dos seus maridos, mulheres, filhos eirmos, ea dor amesma, de quem parte ede quem v partir, seja em 2006 ou nos anos 60, sejam os intervenientes militares de carreira ou soldados recrutados fora.
E.L.Oseu livro aborda (mais lateralmente) otema da multiculturalidade, pois apersonagem principal portuguesa, descendente de uma guineense, casada com um francs, evive em Frana. um reflexo da sua experincia pessoal?
T.G. -Como vivo fora de Portugal h cerca de dez anos, vejo-me diariamente confrontada com oolhar dos outros, que me consideram estrangeira, ecom omeu prprio olhar sobre esses outros, que so forosamente diferentes de mim eda minha cultura. Odesejo de transpor essa experincia para os meus livros inevitvel, at porque as diferenas culturais me parecem extremamente ricas, do ponto de vista romanesco, eenriquecedoras, do ponto de vista pessoal.
E.L.Outro dos temas do livro, muito pertinente na minha opinio, se vale tudo por um suposto bem maior, no contexto da guerra. Acha que existe uma nica resposta?
T.G.No, no existe uma nica resposta eno existem solues fceis eimediatas para um dilema moral to grande como esse, sobretudo para os militares, aquem incutida anoo de dever epatriotismo, ea quem se pede que defendam aptria num pas longnquo como oAfeganisto que, para todos os efeitos, no est em guerra com aFrana nem com Portugal, nem com nenhum dos outros pases que tem militares no terreno. Justificar as suas misses letais torna-se, por conseguinte, difcil. Seja como for, acho que os fins no devem justificar osmeios.
E.L.O ltimo pargrafo do seu livro, Dizem que oamor cego, mas apaixo que no v defeitos eincoerncias. Oamor lcido, v as falhas eas contradies e, apesar disso, subsiste., encerra, na minha opinio, uma lio to simples como difcil de alcanar. Foi esta, em ltima anlise, amensagem que quis passar aos seus leitores?
T.G.Sem dvida. Quis mostrar ao longo de todo olivro que overdadeiro amor um sentimento capaz de ultrapassar todas as diferenas (sociais eculturais) ede aceitar ooutro como ele , com todos os seus defeitos econtradies. Mas no me refiro s ao amor que une um casal, mas tambm ao amor em sentido mais lato, entre as pessoas. Se tentssemos compreender oOutro, odesconhecido, oestrangeiro, econsegussemos aceitar as suas diferenas, provavelmente pensaramos duas vezes antes de decretar uma guerra.
E.L. - Refere na nota final do seu livro que este demorou mais aser escrito devido ao facto de tratar de um tema que lhe era prximo edoloroso (a guerra do Afeganisto). Oseu completar, que significou oultrapassar da auto-censura que refere, acabou tambm por ser uma espcie de libertao?
T.G.No se pode escrever com censura, aescrita tem de ser absolutamente isenta de tabus einterditos, por isso acabar este livro foi uma verdadeira libertao. Alm disso, j tinha outro romance na cabea eestava desejosa de me meter na pele de novas personagens, mas s consegui faz-lo quando finalmente pus oponto final em A Lucidez do Amor eme libertei, por assim dizer, das vidas da Paula edo Michael, com toda aangstia que lhes estava subjacente. Foi uma etapa da minha vida pessoal que se fechou para dar lugar aoutra.
E.L. - Para alm da escrita, tenho acompanhado com interesse oseu trabalho como tradutora. Oque lhe d mais prazer fazer (se que consegue comparar as duas actividades)?
T.G.Averdade que decidi ser tradutora porque adorava escrever etinha jeito para lnguas. Como achei que no me agradaria escrever diariamente por encomenda, eliminei logo ahiptese de seguir jornalismo, ecomo aos 21 anos era razoavelmente lcida, percebi que no podia ter aveleidade de me autoproclamar escritora eviver disso. Atraduo foi avia bvia, por excluso de partes. Adoro traduzir, mas aminha profisso eno aminha identidade, foi uma escolha consciente. Aescrita quem sou, qualquer coisa de muito mais profundo, inconsciente. aminha maneira de viver, sempre com uma voz l no fundinho atransformar arealidade em fico.
E.L.Qual olivro que, at hoje, mais gostou de traduzir eporqu?
T.G. -AAcidental, de Ali Smith, porque foi omaior desafio que tive at hoje. Ter de encontrar todas as referncias culturais que esto escondidas no texto (ttulos de filmes, fait-divers, letras de msicas) eadaptar para portugus um captulo inteiro em versos decassilbicos foi uma misso to complicada quanto divertida. Andei durante semanas aincomodar os meus amigos americanos eingleses para me ajudarem aencontrar essas referncias epassei horas no Google procura de ttulos de filmes do cinema mudo. Mas tenho de acrescentar que osegundo maior desafio, eigualmente gratificante, foi traduzir AVida em Surdina do DavidLodge.
E.L.Com que gnero literrio mais se identifica? Que livro recomendaria dentro desse gnero?
T.G. -Nunca gostei de rtulos, por isso evito pensar nos livros em termos de gnero. Digamos que tenho propenso para aescrita de mulheres eque adoro autoras como aDoris Lessing, aMargaret Atwood, aJoyce Carol Oates, aJean Rhys, aAna Teresa Pereira, aTeolinda Gerso, portanto recomendaria qualquer livrodelas.
E.L. -Oque pensa da situao actual da literatura portuguesa eda importncia dada aos seus novos valores pelas editoras eleitores?
T.G.Aliteratura portuguesaprefiro falar em literatura lusfonaest cada vez mais rica, com autores novos que conseguiram cativar uma enorme parte da populao que no se sentia capaz de ler textos ditos difceis, como os de Lobo Antunes ou Saramago. Avariedade nem sempre sinnimo de qualidade, mas penso que aliteratura portuguesa est em franca expanso eno bom caminho. As editoras andam aapostar mais nos escritores portugueses, mas ainda h muito trabalho afazer nesse campo; temos autores, sobretudo mulheres, que mereciam muito mais destaque, como aPatrcia Reis ea Dulce Maria Cardoso. Espero que os leitores ensinem as editoras avalorizar mais os nomes que publicam."
09-03-2010
"Foi com muito prazer que aceitei o desafio da Porto Editora para colocar algumas perguntas escritora Tnia Ganho. A autora do recentemente editado A Lucidez do Amor (opinio aqui) respondeu assim s minhas questes: Mrcia - Como nasceu a paixo pela escrita? Sei que ganhou um prmio literrio aos 12 anos, j sabia, nessa idade, o que queria fazer?
Tnia Ganho - Eu diria que a paixo pela escritanasceu comigo, j vinha inscrita no ADN. Tenho um tio do lado da minha me que aos dez anos escrevia poemas extraordinrios e, como herdei dele a miopia galopante, natural que a reboque das dioptrias tenha vindo o gene literrio. Lembro-me de passar horas no Jardim Escola a escrever, ou melhor, a transcrever, com a ajuda da me de uma colega, os poucos contos tradicionais que conhecia e isso dava-meum prazer enorme. Aos doze anos, quando uma professora decidiu apresentar dois dos meus contos a um concurso literrio, j eu sabia que queria ser escritora mas, curiosamente, demorei muitos anos a ganhar coragem para contactar uma editora, o simples facto de escrever bastava-me.
M - Tenho uma grande curiosidade em relao ao trabalho do tradutor, pois fica sempre a dvida se estou a ler exactamente o que o autor quis transmitir, com o sentido que ele lhe atribuiu. Quais so as principais preocupaes quando se faz a traduo de um livro? um trabalho tcnico e rotineiro? Ou antes particular e cada livro um caso especial?
T.G. - Uma traduo literria nunca rotineira, ao contrrio das tradues tcnicas, que so frequentemente repetitivas, basta apreender o vocabulrio de base e depois fazer copiar/colar de texto para texto. Cada livro que traduzo um caso especial, um universo em si, e a minha grande preocupao - talvez por ser escritora - respeitar ao mximo o texto do autor, em termos de estilo, voz, registo lingustico. Por vezes, difcil interpretar uma frase ou compreender a escolha deuma palavra em determinado contexto ea grandevantagem de traduzir autores contemporneos poder enviar-lhes um e-mail ou marcar um encontro e esclarecer as dvidas directamente com eles.Uma coisa que adoro traduzir vrios livros de um mesmo autor,como me aconteceu com a Rachel Cusk,a Abha Dawesar,a Chimamanda NgoziAdichie e a Ali Smith, porque isso me d um conhecimento to profundo da obraque j sei que h palavras, imagense estruturas que se vo repetir de romance para romance. Por exemplo, a Rachel Cusk tem uma predileco pela palavra fold, que se repete de livro para livro em diferentes contextos, a Abha Dawesar tem uma linguagem muito repetitiva e clnica, a Chimamanda emprega muito vocabulrio emibo, a Ali Smith adora trocadilhos... O prazer de traduzirum autor passa tambm pela relao de confiana que se cria com ele.
M - Gosto muito do David Lodge, como traduzir um autor com um gnero to peculiar e um humor to prprio?
T.G. - Foi um prazer enorme traduzir A Vida em Surdina e trocar e-mails com o David Lodge. um autor que est extremamente atento s dificuldades que os seus livros suscitam em termos de traduo e que, por conseguinte, responde s dvidas dos tradutorescom uma grande generosidade, o que faz com que os prprios tradutores se procurem uns aos outros para discutir o trabalho entre si (eu gosto muito de criar uma espcie de rede europeia de traduo e contactar os outros tradutores que trabalharam ou vo trabalhar os mesmos textos que eu). Tive de fazer muita pesquisa sobre Lingustica e contactar uma antiga professora da Universidade de Coimbra para confirmar uma srie de termos tcnicos queo David Lodgeutiliza no texto, e passei horas -muito divertidas! -amatutar nos diferentes trocadilhos fonticos para arranjarequivalentes em portugus que fossem igualmente plausveis e divertidos.Foi uma daquelas tradues quese infiltrou na minhavida domstica, era-me impossvel desligar do texto, mesmo depois de apagar o computador e dar o dia de trabalho por encerrado.
M - A internet um espao de opinio global, onde qualquer pessoa pode publicar o que pensa. A comunidade de leitores existe e os blogues assumem a sua importncia na divulgao de livros. Costuma acompanhar o que se escreve na blogosfera?
T.G. - Tento acompanhar o que se escreve na blogosfera -dentro da medida do possvel, claro, porque isso exigeum certotempo-eestou impressionada com a quantidade de blogues literrios que existem neste momento em Portugal. Acho maravilhosoos leitores criarem espaos na Internet para falarem sobre livros, trocaremideias,fazerem sugestes, divulgarem obras.Enquanto escritora, os blogues do-me acesso s opinies dos meus prprios leitores, o que uma experinciaextremamente interessante!
M - Como encara esta forma de divulgao? Preocupa-a o que podem escrever sobre si?
T.G. - Podendo qualquer pessoa publicar na Interneto que pensa sobre todo e qualquer tema,parece-me louvvel que algum crie um blogue nopara falar de si masde livros. E, regra geral,quemgosta de ler e tem verdadeiros hbitos de leitura respeita a priori otrabalho dos escritores e no faz crticas vs ou destrutivas, por isso no me preocupa por a alm o que possam escrever sobre mim. Aprecio crticas construtivase as que o no so, ignoro. Seja como for, tenhoencontrado muito mais comentrios positivos aos meus livros do que negativos, por isso no me queixo dos bloggers portugueses! (sorriso)
M - expresso recorrente que em Portugal se l pouco. Concorda? Ou ser que j no bem assim e, apesar de haver mais leitores e maior gosto pelos livros, continua-se a utilizar a mesma expresso gasta e deprimente?
T.G. - muito gasta e deprimente, tem toda a razo. H cada vez mais blogues literrios, mais comunidades de leitores, mais prmios, mais concursos de escrita, mais gente a ler nos cafs, nas ruas, nas praias. A minha perspectiva optimista, acho que em Portugal se l cada vez mais.
M - O que gosta de ler? Que gneros e autores prefere?
T.G. - Pergunta complicada... Como sou portuguesa, gosto de acompanhar o que se publica no nosso pas, portanto, sempre que venho a Portugal, compro uma pilha de romances lusfonos e leio-os, mesmo que por vezes o estilo ou o tema no me interesse por a alm. Como vivo em Paris e sou casada com um francs que todas assemanas traz para casa os suplementos literrios dos jornais, gosto de acompanharo que se publica em Frana, mas neste caso s leio os romances que me despertam verdadeiro interesse. Como tenho laos muito fortes com o Ingls e com a Inglaterra, fao questo de seguir determinados autores e estar a par das novidades literrias. Ou seja, tenho gostos muito eclcticos, mas a verdade que instintivamente procuro livros escritos por mulheres e, claro, tenho as minhas autoras de culto: Margaret Atwood, Doris Lessing, Joyce Carol Oats, Alice Munro, Jean Rhys, Marguerite Duras, Lusa Costa Gomes, Teolinda Gerso, Ana Teresa Pereira... a lista longa!
M - Como surgiu e porqu o tema da Guerra como cenrio ao seu ltimo livro A Lucidez do Amor?
M - notria, no decorrer do livro, a sua preocupao em descrever a Guerra dos tempos actuais em oposio por exemplo Guerra do Ultramar; pelo menos foi este o motivo que atribu presena dos pais de Paula e s descries da experincia do pai na Guin. Porque o fez?
T.G. - A guerra fascinante para qualquer escritor, massenti necessidade de escrever especificamente sobreesse temaquandotive um filho, em 2006, que me fezrever toda a minha maneira de encarar a vida e a morte; ainda por cima,na poca, euvivia numa regio em Frana onde havia duas basesareas de onde todos os meses partiam novas levas de militares para o Afeganisto, o que me repensaro direito de matar, de tirar uma vida, sobretudo em nome de conceitos como o patriotismo ou de chaves como "a luta contra o terrorismo". Como sempre me intrigou a experincia do meu pai, que esteve dois anos na Guinmas nunca me falou de atrocidades nem de traumas psicolgicos, decidi investigar a questoe, no fim,estabelecer um paralelo entreas guerras colonias e as guerras actuais, aparentemente to diferentes, mas muito iguais na sua essncia, no sofrimento que causam.
M - O que foi mais importante para si, oferecer aos leitores uma viso do que uma Guerra hoje, ou mostrar como se vive uma relao a dois quando no meio existe a distncia, a constante preocupao e peso de uma Guerra?
T.G. - O mais importante foi falar sobre duas pessoas que se amam e que, por causa da presena da guerra nas suas vidas, so confrontadas com a verdadeira natureza uma da outra e com a realdimenso do seu amor. fcil desistir de uma relao apontando os defeitosao outro, fcil demonizar o que no se conhece ou que no agrada, da mesma maneira que fcil viver superfcie, num mundo seguro e contido, sem ver alm das fronteiras que ns mesmos criamos.O meu desejo foi falar de um sentimento que supera tudo,de um amor pelo outro mas tambm pelo Outro, entre homem e mulher, e entre povos, raas, culturas. A guerra permitiu-me abordar este tema num sentido verdadeiramente universal.
M - Confesso que as suas descries sobre o dia-a-dia das mulheres dos militares me surpreendeu e marcou. O facto de a maioria no ter emprego e se dedicar exclusivamente famlia e s relaes de amizade com outras mulheres na mesma situao, marca uma distncia colossal em relao ao dia-a-dia das mulheres que investem na carreira. Acha que a posio activa que as mulheres assumem hoje em dia no mercado do trabalho compromete a famlia?
T.G. - No compromete a famlia se conseguirmos encontrar um equilbrio entre a carreira e a famlia, o que extremamente difcil. O facto de eu trabalhar em casa, por exemplo, permite-me ter tempo para o meu filho sem descurar as tradues, mas h dias em que sinto que estou a tentar conciliar dois mundos que por vezes no so compatveis. As mulheres entraram no mercado de trabalho, mas a verdade que no foram criadas estruturas para as apoiar: todas as empresas deviam obrigatoriamente ter uma creche e, num mundo ideal, todas as famlias deviam ter os pais, os sogros, os irmos, os cunhados por perto, para se entreajudarem. Estamos cada vez mais dispersos, separados dos familiares, e as pessoas encontram-se sozinhas a terem de gerir as doenas dos filhos, as reunies de trabalho inesperadas, os relatrios da empresa, os deveres da escola... Somos verdadeiros malabaristas, a tentar no deixar cair nenhuma bola.
M - Ser que no gostaramos todas ns mulheres, mesmo que secretamente, ter um bocadinho mais de tempo para os filhos, para os maridos, para as amigas e para aquelas actividades que mais gostamos em detrimento da competitividade do mercado do trabalho?
T.G. - Eu gostava de ter mais tempo para a famlia, sem dvida, esinto que a maior parte das mulheres precisava de ter mais tempo paraelasprprias, j nem sequer para os filhos ou para o marido. Tempo para respirar.Tempo para no fazer nada.Eu, por exemplo, no sei no fazer nada, terrvel, porque no consigo entregar-me ao cio sem me sentir culpada. O trabalho ocupa uma fatia demasiado grande das nossas vidas, devia confinar-se a horrios mais restritos, das nove s trs, por exemplo. (risos)
M - Penso que A Lucidez do Amor conta uma histria dura e narra uma realidade difcil sem se tornar pesado ou deprimente. Concorda? Se sim, foi uma deciso consciente? Porqu?
T.G. - Foi uma deciso consciente, sim. Detesto melodramas e o tema de "A Lucidez do Amor" prestava-se a isso mesmo, por isso optei por um estilo muito conciso, contido, sem grandes tiradas emocionais, para a escrita no se tornar deprimente. E, no fundo, a histria da Paula e do Michael a histria de um amor feliz eeu queria passar essa imagem ao leitor.
M - Em relao ao futuro, quais so os seus projectos?
T.G. - Escrever, escrever, escrever. Continuar a traduzir autores que adoro. Aprender a no fazer nada. Ter tempo para respirar. Dar ateno s pessoas de quem gosto.
Agradeo a Tnia Ganho pela disponibilidade e Porto Editora por esta oportunidade."