"Michael e Paula. Separados por uma guerra. Ela numa aldeia francesa, ele numa base militar no deserto tajique. Unidos pelo bebé de poucas semanas que ficou com a mãe e pela inconstância das linhas telefónicas, mas, acima de tudo, por um amor claro e concreto, feito dos pequenos nadas que ocupam cada dia de espera pelo regresso e reencontro.
Claro e directo, sem complicações desnecessárias, este é um livro em que, mais que a escrita em si, a história que conta é o ponto máximo. A emoção está lá e não são necessários floreados ou descrições elaboradas para transmitir ao leitor os fragmentos de medo e de esperança que fazem parte desta obra, uma história de acção e de espera, de emoção e de mistério e, acima de tudo, de uma ligação cimentada na ausência e na guerra, para a construção de um amor sem barreiras.
Através de pequenos momentos, situações simples, a autora apresenta-nos a vida e as emoções de Michael e de Paula e, na precisão com que nos transmite cada gesto e cada emoção, as páginas vão passando no embalo de uma história que nos mantém, constantemente, entre a esperança de um final feliz e o pressentimento de uma tragédia iminente. Mais que um retrato da guerra, temos a visão do lado humano presente naqueles que nela se envolvem: não só os que arriscam a vida em combate, mas também os que, na distância, esperam, ansiosos, um sinal de que os seus estão vivos e bem. E é aí que a autora deste livro nos conquista em pleno: desde o início que estamos, enquanto seguimos a história do casal, bem como as suas incursões às memórias do passado - de como se conheceram, da história das suas famílias - emocionalmente ligados à ânsia da espera, ao medo do fim e à esperança do reencontro que é a constante essencial deste livro.
A Lucidez do Amor é, na sua essência, um livro de emoções, uma história que, sem prelúdios desnecessários, se dirige para aquilo que realmente interessa: a tempestade de incertezas e de emoções que será um amor pautado pela ausência e pelo medo. Belo, simples e comovente, este é um livro que recomendo. Uma história de corações divididos entre o medo e a esperança, tão próxima como a vida.
Carla Ribeiro
http://issuu.com/bm.mb/docs/alterwords_14
"A Lucidez do Amor mostra, sobretudo, a angústia de muitas mulheres que têm os maridos, namorados, filhos, a combater em guerras, que muitas vezes não tem nada a ver com eles, nem directamente com o país que defendem. Esta angústia é “vivificada” por Paula, uma portuguesa a viver numa pequena aldeia em França, que a poucas semanas de ter dado à luz o seu filho Artur vê o seu marido francês, Michael, a partir para o Tajiquistão para lutar contra o terrorismo. Tânia Ganho constrói uma narrativa diária que coloca os leitores na pele da jovem Paula que se vê a braços com a maternidade pela primeira vez, sozinha, e com receio de que aconteça algo de mal ao seu marido. Paula é uma mulher com muitas fragilidades, com muitos receios, tanto do marido, como do próprio filho. Paula é uma mulher que ainda está a aprender a viver como tal. Apesar de ter sido mãe recentemente, mantém a sua carreira como ilustradora e isola-se muito na sua casa, vivendo constantemente angustiada. No entanto, não deixa de manter contactos com as mulheres dos colegas de Michael, que também se encontram na mesma situação. Encontram-se para piqueniques, para tertúlias, que as fazem, por momentos, esquecer que os maridos estão em ambiente de guerra e correm risco de vida diariamente. Michael é um homem timorato, que gosta da aventura, da adrenalina, precisando disso mesmo para viver. Mas o livro não retrata apenas a vida do jovem casal, como também a vida de Binta, mãe de Paula, uma africana, oriunda da Guiné-Bissau, que, apesar de ter nascido numa região muito pobre, mostra uma inteligência nata; e do seu marido Álvaro que conheceu Binta aquando da sua missão na altura do Ultramar, que carrega consigo alguns traumas de guerra que nunca quis revelar à filha, ela própria, fruto dessa mesma guerra. A Lucidez do Amor é um livro que mostra, essencialmente, o lado emocional das suas personagens, que contam desesperadamente os dias para se juntarem novamente. É um livro que nos prende e toca à história simples, mas bela, de um amor distante, mas sincero, cheio de expectativa de que tudo corra bem.
Excertos:
“No dia em que eu me começar questionar, mesmo em voz baixa, se o meu marido matou inocentes, não sei como é que vou conseguir olhar para ele.”
"Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste."
Classificação: 4/5"
http://leiturasdasmarias.blogspot.com/2010/03/lucidez-do-amor-tania-ganho.html
"Guiné 63/74 - P5777: Notas de leitura (64): Já participamos nos romances dos outros - A Lucidez do Amor, de Tânia Ganho (Beja Santos)
1. Mensagem de Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Fevereiro de 2010:
Queridos amigos,
Que grande surpresa, receber o romance da Tânia Ganho! E orgulho, por ver que o blogue é acompanhado em várias partidas do mundo, somos úteis na construção de personagens, que a Guiné existe no imaginário dos escritores e que os combatentes, com mais ou menos sofrimentos e marcas, são convocados para romances, apaixonam-se por fulas e são felizes a seu lado.
Um abraço do
Mário
Já participamos nos romances dos outros!
Beja Santos
Em 2009, recebi um e-mail de Tânia Ganho a pedir-me informações sobre a vida em Bambadinca, concretamente pretendia elementos sobre a vida das lavadeiras que prestavam serviço aos militares do aquartelamento. Lá procurei responder, de acordo com a minha vivência e apresentei Bambadinca enquanto quartel e tabanca, povoações limítrofes, porto e rio Geba. Importa esclarecer que Tânia Ganho é autora de romances e vive da tradução (tem traduzido autores como David Lodge, Annie Proulx, Anais Nin), já conhecia Bambadinca porque frequenta regularmente o nosso blogue.
Pois bem, acabo de receber o seu mais recente romance “A Lucidez do Amor” (Porto Editora, 2010) em que a autora agradece a António Graça de Abreu e a mim, bem como às histórias do blogue, escreve ela que se inspirou num texto de Vítor Junqueira “A chacun, sa putain” sobre a prostituta Fanta Baldé e a ideia de que havia crianças felizes em Bambadinca. O seu romance baseia-se em quatro personagens: um piloto francês, Michael, estranhamente supersticioso, Paula, uma portuguesa que conheceu Michael em Porto Santo, uma artista que vive em permanente ansiedade na sua residência em França, separada de Michael por quatro meridianos e cinco mil quilómetros de distância; Álvaro, um alferes que combateu na Guiné e que carrega um pesado segredo dos seus tempos de guerra; e Binta, uma fula de Bambadinca, que trabalhou como lavadeira e se apaixonou por Álvaro (Binta e Álvaro são os pais de Paula).
Tânia Ganho urde a trama do seu romance com base num telefone inquietante ou pacificador: Paula trata do filho recém-nascido, Artur, vive rodeada de mulheres cujos maridos andam também lá longe, no Tajiquistão e no Afeganistão, em missões para todas elas incompreensíveis, está sempre à espera do contacto telefónico, é a tónica da ansiedade que a mortifica e que no fundo é o lastro da comunicação que a congrega com as mulheres dos outros militares. Tem pesadelos, sonha com a queda de aviões, cada telefonema de Michael é o alívio possível, o que se passa lá longe, a partir de Duchambé, dos Mirages que bombardeiam ou abastecem, ela pouco ou nada sabe, mas não deixa de ver o noticiário internacional e sabe que Cabul é uma capital ameaçada. É uma espera feita de telefonemas, é uma comunicação sincopada, é um acordar e adormecer à espera de notícias, o ciclo de comunicação de Michael é o de produzir informação, inócua quanto ao serviço, personalizada quanto ao seu estado de espírito e dos camaradas.
Como é evidente, as histórias de Álvaro e Binta são relativamente acessórias às vidas de Michael e Paula que se movimentam em paralelo. Não vamos aqui contar qual é o segredo de Álvaro, o importante é que Binta é o amor da sua vida, estão constantemente a adiar a sua viagem a Bissau, querem lá ir em 2009, mas quinze dias antes de partirem Nino Vieira é assassinado, o casal volta a adiar o regresso à terra em que se conheceram e que mudou as suas vidas. Tânia Ganho termina assim o seu livro: “Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste”.
Quando, em finais de Agosto de 1970, viajei no Carvalho Araújo, a caminho de Lisboa, conheci um alferes que vinha com a sua esposa libanesa, um amor construído e consolidado em Bafatá, tanto quanto me recordo. Às vezes pergunto-me por onde andará aquele casal, como também me pergunto por andam, passadas estas décadas, as crianças que conheci em Bambadinca, fruto de amores efémeros. Há dias, telefonei ao Fodé Dahaba, a propósito do estado do cemitério de Bambadinca, onde estão os restos mortais de três camaradas nossos. Ele insistiu que eu devo voltar, rever tudo, há ainda gente que pergunta por mim, ainda há vários soldados vivos que nunca esqueceram o nosso tempo. Ele tem razão. Eu queria ver se regressava, em nome da lucidez do amor que lhes guardo. E aproveito para agradecer à Tânia Ganho em ter posto a Binta de Bambadinca no seu último romance. E digo com orgulho que agradeço em nome do blogue.
Este livro irá pertencer ao blogue, por direito próprio."
http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2010/02/1.html
"Até agora, apenas conhecia o trabalho da Tânia Ganho no que à tradução diz respeito, pelas traduções em A Vida em Surdina (David Lodge), O Mundo Invisível (Shamim Sarif) ou Aquele Verão em Paris (Abha Dawesar), mas desta vez tive oportunidade de ler um trabalho de sua autoria e comprovar que, para além das excelentes traduções, é uma autora que vale a pena conhecer. Este A Lucidez do Amor é o terceiro romance de Tânia Ganho.
Este livro acompanha a vida de um casal, ela portuguesa e ele francês, separado pela guerra no Afeganistão, quando Michael é destacado para uma missão nesse país em conflito, em 2006. A história tem início no dia em que se separam, e cada capítulo marca a passagem de um dia em que ambos desejam que a separação termine. Vamos acompanhando a vida de Paula e do seu pequeno bebé, ela própria "fruto" de uma guerra, uma vez que os seus pais se conheceram quando o pai foi para a Guerra do Ultramar, na Guiné-Bissau. Ao mesmo tempo, vamos tendo alguns vislumbres do que se passa no Tajiquistão, onde se situa a base de Michael. No meio destes relatos, ficamos também a par da história do casal, desde que se conheceram até ao tempo presente.
Apesar da visão dos dois lados da barricada, penso que o livro trata basicamente da visão feminina da guerra. Das mulheres que ficaram e continuam a ficar em casa à espera que os seus maridos regressem de guerras, aparentemente sem qualquer sentido. Porque é em Paula e nas saudades que sente do marido que o livro mais se centra. Mas fala também do (pouco) sentido das guerras actuais, que continuam a destruir países pobres e as vidas das pessoas que lá estão, e do conflito interno dos militares, que lutam contra o facto para fazer aquilo que "devem" por oposição àquilo que está certo.
Gostei muito da voz da autora. Com uma escrita despretenciosa, envolve-nos na história e nos dilemas das suas personagens. Mesmo antes de ler a nota final, onde refere que a guerra do Afeganistão era um tema próximo e doloroso, consegui percebê-lo nas suas palavras ao longo do livro, pela emotividade que delas extravasa. Sinceramente, uma leitura que achei valer bastante a pena. Termino com a transcrição do último parágrafo do livro: uma grande verdade e a explicação do seu título:
Dizem que o amor é cego, mas é a paixão que não vê defeitos e incoerências. O amor é lúcido, vê as falhas e as contradições e, apesar disso, subsiste.
Célia M.
8/10 - Muito Bom"