"A Arca de José"
conto publicado em
revista Portefólio 2011
http://fundacaoeugeniodealmeida.pt
"Litania da Insatisfação"
conto publicado em
revista Egoísta de Abril 2011
Tema: Animal
"A Casa dos Relógios Parados"
texto publicado em
http://www.portaldaliteratura.com/cronicas.php?id=54
Novembro 2010
A casa dos relógios parados
Mesmo depois de morto, ele continuou a ser o rei da casa, o pater familias. Nós vivíamos longe dele, mas não do seu poder. Todos os Verões, íamos visitá-lo, ficávamos na sua terra durante um mês, um mês na ilha onde as mulheres rezavam a Santa Bárbara em noite de temporal e nunca se juntavam treze pessoas à mesa.
Os meus pais e eu dormíamos no quarto azul-celeste, que pertencera à minha tia mais nova antes de casar. Ela decorara-o com móveis brancos, modernos, de linhas rectas, sobre os quais tinha sempre diversas bonecas aninhadas entre os livros dispersos que contavam histórias de amor – era um quarto de futuro e esperança. Os meus irmãos ocupavam o antigo quarto da minha avó – o quarto do passado –, onde a cómoda de cerejeira era repositório de lençóis bafientos e colchas bordadas, a mesinha de cabeceira luzia a caixa de jóias com brincos de ouro e pregadeiras de vidro colorido, e as portas do roupeiro rococó protegiam longos vestidos mofentos de renda e folhos. Durante anos, o quarto da avó foi sala de jogos das crianças da família. Escondíamo-nos junto da janela e do lado de fora só se nos viam os olhos acima do parapeito, concentrados a espreitar o avô a regar as rosas do jardim e, à noite, a criada a namorar ao portão de ferro.
Quando o meu avô morreu, passei a ficar no terceiro quarto da casa, onde raramente se abriam as portadas verdes e os dias decorriam numa penumbra assombrada. Eu não conseguia dormir, porque fora naquele quarto que ele falecera. As paredes eram de uma cor doentia, desmaiada, e estavam cobertas de fotografias dos meus tios quando eram jovens, rostos sorridentes em redor do semblante sério daquele pai de onze filhos, o patriarca. O roupeiro estava cheio de sapatos, camisas, calças e coletes e, debaixo da cama, alguém guardara os chapéus pretos que ele usava todos os dias de manhã para ir trabalhar. Dentro de um armário, ainda se encontravam os medicamentos que tomou até morrer. Sobre esse armário de portas sempre fechadas e cheiro a doença, estavam alinhados os relógios que ele acarinhava no bolso do colete. Às onze horas, num ritual que se repetia todas as noites, o irmão mais velho do meu pai dava corda aos relógios, para que o seu ruído metálico e monótono se fizesse ouvir na eternidade.
Hoje, a casa já não tem rosas e relógios, nem crianças a correr e criadas a namorar ao portão. Já ninguém acorda o Avô com bonecos a tocar tambor quando ele dorme a sesta na poltrona, ninguém grita «um morganhinho!» a ver televisão na marquise abafada, ninguém conversa pela noite dentro encostado à bancada de mármore da cozinha. Ninguém esconde as papas de milho do patriarca quando ele se senta à mesa, ninguém despeja um frasco cheio de moscas na salinha onde ele adormeceu a ler o jornal. Os pombos-correio que criava voaram para longe, os primos cresceram e casaram-se, as fotografias desapareceram no fundo de um baú que, um dia, alguém encontrará soterrado no sótão.
Longe da ilha e da minha infância, sozinha em Lisboa, ainda ouço os relógios a tiquetaquearem e é o meu avô quem lhes dá corda. Os medicamentos desapareceram do armário e a Avó tira os seus vestidos do roupeiro todos os dias para ir ao mercado, a minha tia acabou de se apaixonar pela primeira vez e os sorrisos voltaram a enfeitar as assoalhadas, os primos brincam às escondidas no quintal e a vida impera na casa, por entre as rosas do jardim, o jardim mais bonito do Funchal.
Nesta imagem que guardo intacta, a morte ainda não começou a levar as pessoas que amo, uma a uma, em insuportáveis vagas que se sucedem sem justiça nem compaixão.
*
"Rilke no Pavilhão Chinês"
conto publicado em
revista Egoísta de Junho 2010
Tema: Liberdade


Rilke no Pavilhão Chinês
Presque tous méconnaissent également leur juste liberté et leur vraie servitude.
– Marguerite Yourcenar
Vivo em aeroportos – portas de embarque sorteadas, corredores de vidro-estufa, salas de espera-aquário, celas de isolamento para fumadores. Vivo em trânsito – táxis, aviões, automóveis de aluguer; tarifas regulamentadas, bilhetes reembolsáveis, prazos de devolução. Vivo sem correntes, apenas com bagagens.
Tenho duas malas que vou alternando: uma com roupa lavada que levo em viagem e uma com roupa suja que deixo em casa para a empregada lavar. Tenho tudo a dobrar – camisas, calças, sapatos –, mas não possuo casa, telemóvel nem carro próprios. Estou a soldo, a minha vida é gerida pela empresa, pertenço ao patrão do meu patrão do meu patrão. Não me importo; os aeroportos condizem comigo e os alugueres também, as cedências é que não. A minha ex-mulher que o diga. A única cedência que lhe fiz foi o sim na igreja. Por mim, tínhamo-nos casado no civil, ou nem sequer casado. Ela insistiu, eu cedi. Dois anos depois, estávamos em tribunal e, dessa vez, fui irredutível, impiedoso. Divorciei-me da mesma maneira que fecho negócios. Compro os homens com garrafas de uísque em bares de hotel, e as mulheres com versos de Sophia em stands de feira. Prefiro os uísques, são mais caros, mas exigem menos trabalho.
Quando estou cansado, às vezes esqueço-me dos versos. Por hábito, digo sempre que li livros que não li (decoro sinopses e frases soltas de críticas, que me servem de muletas) e, quando a conversa tenta ir além do comentário de superfície, apresso-me a lançar outro título para a discussão, de preferência um que seja tão obscuro que ninguém conheça ou tão óbvio que eu próprio o tenha lido. Sou bom no bluff.
Cheguei ontem do Rio, parto amanhã para Paris. Mudança radical de estação. O meu corpo começa a sofrer não só de jet-lag, mas de season-lag. Sempre andei com os fusos horários trocados, em permanente décalage com a realidade e, no entanto, as directas e os choques térmicos são cada vez mais difíceis de suportar. Fisicamente. Psicologicamente, gosto deste desfasamento que cria uma espécie de bipolaridade saudável. Sem necessidade de comprimidos para equilibrar.
Ela vinha sentada ao meu lado no avião. Bastou-me ver os números da porta de embarque e do lugar para saber que a viagem seria auspiciosa. Talvez até passasse a noite acompanhado, num hotel qualquer de Lisboa. Em minha casa, não. Evito levá-las para casa. Os hotéis são como os aeroportos: lugares de passagem, com muitas portas de serventia e escadas de incêndio. Assim que ela se aproximou, tirei-lhe as medidas e fiquei desconcertado. Era a única mulher naquele voo do Rio de Janeiro vestida como um saco de batatas, mas nenhuma tentativa – deliberada, percebi depois – para parecer um saco de batatas conseguia esconder aquele corpo de um olhar experiente. Era um prodígio de aerodinâmica, vulgo um avião. (Eu sei, tenho noção de que me reduzi a um nível boçal.) Poli rapidamente os meus versos e as minhas frases ambíguas, mas ela retraiu-se por detrás das pálpebras fechadas. Fiquei-me a observá-la, frustrado, até que a hospedeira nos trouxe os tabuleiros de comida asséptica e lhe deu um toque no ombro. Acordou, sobressaltada, e vi-lhe o gesto instintivo – quase imperceptível – de se encolher contra a janela. (Sou boçal, mas perspicaz.) Lembrou-me a gata branca da minha ex-mulher, que se escondia debaixo da colcha da cama sempre que recebíamos visitas. A gata tinha pavor de gente.
Ela pousou o tabuleiro na mesa e voltou a fechar os olhos.
– Não come? – perguntei, estupidamente.
Fitou-me e os seus olhos azuis raiados de sangue, desmesurados como os de uma personagem de banda desenhada japonesa, fizeram-me esquecer todas as deixas. Senti-me constrangido, como se tivesse sido apanhado a trespassar, a transgredir.
– Desculpe, não é da minha conta – e calei-me.
– Deixei no Rio a pouca família que me resta – respondeu ela, com um sorriso melancólico. – Fiquei sem apetite.
Não insisti; concentrei-me na sobremesa esponjosa e plastificada, sentindo-me intensamente observado. E o meu silêncio – que era tão raro, que eu próprio o escutava – desencadeou um inesperado desabafo, dramático e desconexo, que mal me atrevi a interromper. Quando, a dada altura, lhe perguntei o que fazia, para desviar a conversa de doenças e maus-tratos para temas mais anódinos, disse-me:
– Vendo o medo às pessoas – e sorri-me, mas ela fez que sim com a cabeça, de olhos muito abertos e convictos. – Passo os meus dias a enumerar todas as catástrofes pessoais e naturais que podem abater-se sobre nós a cada esquina. Quando chego ao fim deste discurso, até eu tenho medo de pôr o pé na rua. – Perante o meu ar perplexo, explicou: – Sou agente de seguros – e soltou uma gargalhada amarga, que destoava daquele rosto de gata assustada. – Deve ser para me proteger de tanto mal que o meu marido me vai levar e buscar a todo o lado, não dou um passo sozinha. Se ele pudesse, controlava até o ar que respiro.
– O que é que faz, o seu marido? – perguntei.
– Quando nos conhecemos, ele era jornalista, mas de há uns anos para cá decidiu dedicar-se a tempo inteiro à sua paixão, a fotografia. O problema é que, como só faz retratos de gente feia e miserável, ninguém os quer comprar e, por isso, anda sempre em depressão. Passa os dias encafuado no quarto escuro ou então a servir-me de chauffeur, cozinheiro, moço de recados…
– Parece o sonho de qualquer mulher – comentei, sarcástico.
– Conhece um filme chamado Boxing Helena? – perguntou ela. Abanei a cabeça. – Pois eu sou a Helena. Mas não perca tempo a vê-lo, é uma coisa de série B, sem pés nem cabeça. Não, cabeça tem – emendou –, braços e pernas é que não.
– Se está tão sufocada, precisa mudar de vida, como diz o poema de Rilke.
– Rilke? – repetiu ela, assombrada.
– «O torso arcaico de Apolo».
– Eu sei qual é o poema – disse, para meu espanto. – Um torso que brilha…
Ficámos a olhar um para o outro.
Estivemos nove horas e meia dentro daquele avião. A minha vontade era fugir dali, inventar uma desculpa qualquer e procurar um lugar bem longe daquela mulher claramente desequilibrada. Nenhum corpo portentoso valia a pena o risco: os loucos sugam-nos para dentro da sua espiral de demência e não há escapatória. Depois de me desfiar o ror de desgraças familiares – está casada há vinte anos com um maníaco-depressivo, a mãe morreu com um cancro, o pai voltou de Angola com stress pós-traumático, a irmã leva surras do namorado, ela não pode ter filhos –, calou-se de repente e baixou a cabeça.
– Desculpe, deve pensar que sou completamente louca. – Fitei-a, sem a contradizer. – Não sou. Com as despedidas e os nervos, não dormi, estou com uma directa em cima…
Começou a chorar e eu, que não suporto lágrimas – não por me comoverem, mas por me fazerem sentir manipulado –, passei o braço pelos ombros dela e puxei-a para mim, deixando-a chorar no meu peito. Ela acabou por adormecer e eu também, e quando acordámos, estávamos a aterrar em Lisboa. Já abracei muitas desconhecidas, mas nunca dormi com elas. Foi com um profundo embaraço que saímos do avião. Como a minha mala é suficientemente pequena para viajar na cabina e eu não ter de esperar pelas bagagens, despedimo-nos num dos asfixiantes corredores de vidro.
– Sinto-me péssima por me ter descontrolado desta maneira – desculpou-se. Fiz um gesto como quem diz «não tem importância» e virei-me para ir embora. Ela reteve-me com a mão. – Gostava que me deixasse mostrar-lhe uma outra Helena, uma Helena que não é louca nem má pessoa, ainda que venda seguros – disse, com um sorriso pesaroso. – Aceita tomar um copo comigo, logo à noite?
Perante aqueles olhos de água e aquele corpo de estátua aprisionado numa saca de juta, dei por mim a dizer que sim.
Eram onze em ponto quando toquei à campainha do bar-museu Pavilhão Chinês, pensando que, nos meus tempos de casado, costumávamos ir jantar ao Paparrucha e depois passávamos por ali para tomar um copo e fumar uns cigarros, a ver o snooker. Dávamo-nos bem nessa época, a minha mulher e eu. Aliás, nunca nos demos mal, o problema é que ela queria de mais, era um sorvedouro de exigências: fidelidade, pontualidade, fiabilidade. Eu não estava pronto para horários, regras, promessas. Ainda não tinha descoberto a minha vocação de frequent flyer, mas pressentia-a.
Helena já lá estava, sentada a uma mesa logo na primeira sala, imóvel entre estatuetas, bonecos e soldadinhos de chumbo. Levantou-se assim que me viu e tive novamente vontade de fugir, porque vinha linda. Substituíra o saco de batatas por um vestido preto de seda com colarinho chinês e uma flor bordada do ombro até ao peito. Trazia o cabelo acobreado solto pelas costas abaixo, era longuíssimo, não me apercebera de como era longo – tinha-o preso com um nó, no avião. Não sei se tomou um Xanax antes do nosso encontro ou se realmente o monólogo tresloucado fora efeito dos nervos e de uma directa, mas a verdade é que a Helena com quem tomei um Martini não era a mesma que me bombardeou com confissões no voo Rio-Lisboa. Quando me sentei, anunciou, com um sorriso cândido:
– Hoje é a minha última noite de liberdade, porque o meu marido foi ao Porto ver a mãe e só volta amanhã. Vamos aproveitá-la bem e conversar sobre coisas agradáveis.
Falei-lhe dos meus livros de culto, aqueles que li deveras, e ela citou-me poemas de Sophia que eu ignorava, fizemos listas dos nossos filmes preferidos, ouvimos os Sétima Legião e Tina Turner e todas as faixas nostálgicas que passam sempre no Pavilhão Chinês e, acima de tudo, rimo-nos. Ela ria como, pelos vistos, fazia tudo na vida: por inteiro, numa entrega absoluta, sem defesas. Foi uma noite boa, muito boa. Despedimo-nos com um abraço relutante e um beijo de raspão, como se tivéssemos medo que os nossos corpos se tocassem, e foi só quando ela desapareceu dentro do táxi, ao fundo da rua do Príncipe Real, que percebi que me tinha esquecido de lhe pedir o número de telefone, o e-mail. Não sabia sequer o seu apelido. Chamava-se Helena.
Assim que cheguei a casa, azamboado, liguei a Internet e fiz o download do filme. Boxing Helena, assinado pela filha de David Lynch, um dos meus realizadores predilectos. Fiquei maldisposto. Imaginei Helena – a mulher que me fez rir no Pavilhão Chinês com a sua imitação de uma «perua» brasileira, a mulher do avião que adormeceu nos meus braços – prisioneira de um louco que a mutila. Helena reduzida a um torso, confinada a uma caixa. Se descobrisse quem ela é, pergunto-me se teria forças para a libertar, sabendo que possivelmente ficaria acorrentado e eu não suporto correntes.
Quando se sentou dentro do táxi, ela abriu a janela e deitou o braço de fora. Agarrei-lhe na mão e a imagem dos nossos dedos entrelaçados, a deslizarem uns pelos outros e a afastarem-se de vez, persegue-me.
Somos dois seres paralisados e incompletos, Helena.
*
"Maxi Pereira, o meu marido e eu"
publicado no suplemento especial do DN
sobre o Benfica
14-05-2010
Durante trinta e sete anos, consegui viver inocentemente de costas viradas para o futebol, coisa extraordinária para quem nasceu no país dos três F. Como nunca fui a Fátima e nunca vibrei com o Futebol, sempre me senti uma portuguesa com defeito; valeu-me o facto de gostar de Fado, senão eu própria me teria classificado de aberração. Em casa dos meus pais, não se ia à missa nem ao estádio, e foi só depois de sexagenário que o meu pai começou a consumir tudo o que era jogo, sob o olhar perplexo da minha mãe. Daqui se conclui, portanto, que este meu desinteresse crónico foi uma falha de educação e não um defeito de fabrico. Quando me perguntavam de que clube era, respondia desprendidamente que não tinha clube, mas se tivesse seria o Sporting, porque a minha casa dava para o estádio dos leões. Até cheguei a saber o nome de um ou outro jogador da equipa, sobretudo porque alguns deles viviam no mesmo prédio que eu. Quando conheci aquele que é hoje meu marido e ele me disse que não se interessava por futebol, pensei cá para comigo que tinha encontrado a alma-gémea. O futebol era uma coisa que só acontecia aos outros, em nossa casa não entrava. Este paraíso de Adão e Eva sem serpente e sem esférico durou até ao dia 11 de Março do ano de 2010.
Estava eu sossegada em casa, a ler no sofá, quando o meu marido, normalmente muito calmo, entrou esbaforido e ligou a televisão.
– Está a dar o Benfica-Marselha.
Arqueei as sobrancelhas e fitei-o, desconcertada.
– E…?
– Quero ver o jogo, chega-te para lá – e empurrou-me para o canto do sofá, com um gesto que me pareceu premonitório de uma terrível metamorfose: o meu marido estava prestes a transformar-se no típico espectador ferrenho de futebol, que manda a mulher nua sair da frente, porque lhe está a tapar o jogo da bola.
Estupefacta, deixei-me ficar na sala, contrariando todos os meus instintos, que me mandavam sair dali a sete pés.
– Porquê este súbito interesse por futebol? – perguntei a medo.
– Porque este jogo é uma desforra, uma vingança. Há vinte anos – disse ele, espetando o indicador no ar, para dar ênfase –, desde o dia 18 de Abril de 1990, que nós estamos à espera de dar cabo dos Portugueses.
Arregalei os olhos. Pelos vistos, ele tinha-se esquecido de que sou portuguesa.
– «Nós» quem? – inquiri, começando a ficar assustada.
– Os Marselheses, quem é que havia de ser? – respondeu-me, sem descolar os olhos do ecrã.
– E desde quando é que és marselhês?
Convém explicar que o meu marido nasceu no sul de França, entre Aix-en-Provence e Marselha, mas sempre se definiu como originário de Aix, capital das artes, enquanto Marselha era o porto dos imigrantes e dos estivadores.
– Eu sempre fui marselhês, estás a gozar?
Assisti ao meu primeiro jogo de futebol, de livro aberto no colo e os olhos postos no meu marido, que ia desfiando todas as reacções típicas de aficionado da bola, desde insultar o televisor quando o Benfica marcou um golo aos 76 minutos, até dar pulos no sofá quando o Olímpico de Marselha empatou, num estádio da Luz à cunha. Descobri, nessa noite, um homem que nunca tinha visto antes dentro de nossa casa, um homem que se foi deitar a resmungar baixinho: «Maldito Maxi Pereira, maldito uruguaio.» Não entendi o que é que o tal Pereira – que, com um nome daqueles, só podia ser português – tinha a ver com o Uruguai, mas não averiguei o assunto.
Apesar de uma certa perplexidade e ressentimento da minha parte, vivemos a semana seguinte pacificamente, ignorando o pomo da discórdia. Quando eu começava a esquecer o incidente que deitava por terra a minha teoria das almas-gémeas, chegámos ao dia 18 de Março e o Benfica jogava novamente contra o Marselha, mas desta vez no Vélodrome. Os Marselheses estavam em polvorosa, com vontade de trucidar os Portugueses. A arrogância gaulesa irritou-me e fui eu própria quem ligou a televisão e anunciou que íamos ver o jogo, mas civilizadamente, sem pragas nem impropérios, acontecesse o que acontecesse.
Até nos estávamos a portar condignamente, mas quando Maxi Pereira marcou novamente golo, desta vez aos 74 minutos de jogo, o meu marido perdeu as estribeiras.
– Putain! Maldito gajo, parece possuído pelo demónio! – gritou, estabelecendo um curioso paralelismo entre futebol e religião. – Sempre que falta um quarto de hora para acabar o jogo, zás, o sacana do uruguaio marca golo! Não há direito!
Pela primeira vez na vida, dei por mim a vibrar com um golo e a sentir que era cem por cento portuguesa, sem falhas de fabrico nem de educação. Olhei para o meu marido com um ar demolidor de vitória e fui-me deitar com a arrogância de um conquistador. O facto de Maxi Pereira ser uruguaio e não português era-me absolutamente irrelevante, o homem defendera a minha pátria com uma garra e um zelo que mereciam todo o meu respeito. Toma lá e embrulha!
Pensei que podia voltar à minha vidinha inocente, ignorando alegremente o futebol, mas houve qualquer coisa que ficou dentro de mim depois desses dois jogos. Curiosa, fui ao Google ver quem era Maxi Pereira, o defensor da honra lusitana, e descobri que o uruguaio de 1,73 m, de vinte e cinco anos, tem toda uma hoste de fãs e que as pessoas o apelidam de «guerreiro» e dizem dele que é «um excelente jogador», «o mais regular», «estável», «profissional», «sólido», «sóbrio», «empenhado», «um combatente», «uma pessoa que nunca desiste»… Encontrei um vídeo na Internet em que Victorio Maximiliano Pereira Páez explica, com aquele sotaque doce, tan bonito, da América Latina, que precisamos de «cabeça fria e coração quente», mas que «havemos de ser campeões», e rendi-me!
Por causa de Maxi Pereira, tornei-me fã do Uruguai, comecei a compreender a euforia do futebol, descobri que o Benfica detém o recorde do clube com mais sócios do mundo, que não me falta nenhum gene luso e que, afinal, sou casada com um macho latino. Uma verdadeira revolução.
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